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August 23, 2013

DAWN OF THE DEAD (Zack Snyder, 2004)


Em 2004, no ano anterior ao regresso de Romero aos zombies que o tornaram famoso com LAND OF THE DEAD (2005), ninguém no seu perfeito juízo pensaria que o mundo necessitava desesperadamente de um remake do clássico de culto DAWN OF THE DEAD (1979), do mestre de Pittsburgh. Muito menos um remake de alto orçamento, conduzido por um realizador estreante.

Afinal, o que podia ele acrescentar a um filme praticamente perfeito? Se essa era uma questão legítima em 2004, era-o ainda mais para mim que, visceralmente incapaz de compreender a necessidade deste tipo de remake, tive o meu primeiro contacto com a filmografia de Snyder através do insofrível SUCKER PUNCH (2011), que apenas detraía dos géneros que procurava explorar, sem lhes acrescentar nada de novo. 


Ora, de forma mais visível, o que Snyder acrescenta são os zombies de locomoção rápida, introduzidos por 28 DAYS LATER (2002) como um meme de grande sucesso que contaminaria o moderno cinema de horror através da franchise RESIDENT EVIL (2002-2012).

O que o conceito de morto-vivo de Romero apresentava de tremendamente impactante era precisamente o seu carácter de máquinas de pesadelo. Literalmente de pesadelo. Um exército que se move, imparável, lento e implacável, como lava, como criaturas que habitam os recônditos mais profundos da mente adormecida, clamando por carne. O seu poder estava nos números, na certeza inconsciente de que os mortos ultrapassam em muito o número dos vivos. E, porque mortos, têm todo o tempo do mundo para nos apanharem. O terror dos mortos-vivos é precisamente o de uma eternidade sem descanso, a arrastar-se atrás de alimento capaz de prolongar um pouco mais a sua indigna não-vida. Os zombies hiperquinéticos de Snyder não deixam espaço para o terror mais pessoal de quem é confrontado com um ente querido agora tornado totalmente alienígena.


Ao ganharem velocidade, são mais as perdas do que os ganhos. Nada distingue os mortos-vivos hiper-rápidos de Snyder de qualquer outra ameaça cinematográfica, seja ela vampiros, ninjas, crazies infectados por vírus, etc… E a grande mobilidade exclui a verosimilhança quasi-científica das limitações impostas pela entropia aos mortos-vivos. A progressiva decomposição dos tecidos, e rigidificação das articulações, o encurtamento dos tendões ressequidos…

A economia da morte passa a ser invejável. Morrer – ou, sendo mais honestos, contaminado – é tornar-se super-herói, é adquirir a força e a destreza dos mais letais predadores. E o que se perde em capacidade mental, não teria efeito apreciável nas massas acéfalas que se sentam diariamente captivos de A CASA DOS SEGREDOS. É uma aposta sem surpresas. Afinal a velocidade, o progressivo encurtamento do intervalo de atenção, é o que distingue este dito remake do filme original. O primeiro destinava-se a pessoas que pensam, o segundo aos zombies dos multiplexes.


E, tal como um moderno zombie, o filme de Snyder tem muito movimento mas muito pouca alma. Como um zombie, o espectador é atraído pelo movimento. Curiosamente, é a gestão primorosa do movimento que torna os primeiros momentos do filme um espectáculo fascinante. A câmara, calma, sem os movimentos bruscos que demasiadas imitações da reality TV imprimiram ao cinema pós-THE BLAIR WITCH PROJECT (1999), segue Ana (Sarah Polley), uma enfermeira, na saída do seu turno de trabalho. O apocalipse iminente é-nos sugerido por pequenos pormenores que não registam na sua atenção: o paradeiro de um paciente, mordido numa luta de bar, que foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos, duas ambulâncias que recebem chamadas simultâneas de urgência, uma frase num boletim noticioso que Ana não ouve por mudar de estação, à procura de música. Um plano picado distancia-nos da acção, seguindo o carro de Ana como um Pac-Man num pacato subúrbio do Milwaukee




Ana e o marido despertam na manhã seguinte num mundo completamente mudado, da forma mais brutal possível, com a intrusão no seu quarto de uma criança vizinha, ensanguentada, uma das imagens mais susceptíveis, na vida real, de causar inquietação. Um possível subtexto do filme pode ser construído a partir desta primeira sequência: vivemos adormecidos na complacência do mundo moderno, distraídos dos acontecimentos em nossa volta pelo entretenimento, pelos reality shows, pelo prazer pessoal, uma complacência que tornou possível os ataques do 11 de Setembro, uma leitura sublinhada pela primeira imagem do genérico, onde vemos uma multidão de muçulmanos arrojados em oração, como um outro exército de zombies. Aliás, todo o genérico inicial é sublinhado por imagens reais de violência um pouco por todo o mundo, que se vão progressivamente misturando com imagens de violência da crescente proliferação diegética dos zombies, como que querendo chamar-nos a atenção para a forma como a violência no cinema imita a violência real, e de como a nossa indiferença pelo sofrimento alheio contrasta abertamente com a histeria que procura conter a violência no entretenimento. Poderíamos mesmo afirmar que DAWN OF THE DEAD responde à crítica do consumismo do filme de Romero, com uma crítica ao alheamento da intervenção individual na esfera da cidadania. Não é à toa que Snyder (e James Gunn, autor do argumento) faz contrastar abertamente as personagens que mais simpatia suscitam no espectador – entre elas uma enfermeira, um polícia, três seguranças de um centro comercial, e uma artista de grafitti (representando a necessidade de irreverência e criatividade) – todas elas com papeis socialmente relevantes, com aqueles outros que vivem voltados para si próprios, orbitando o seu umbigo: um ladrãozeco, a sua namorada russa, grávida e mimada, um organista gay que afirma abertamente que deus não existe (um grande risco no cinema americano de grande estúdio – neste caso a Universal), um milionário edonista e a sua bimba loura e vácua.


As escolhas de Snyder neste campo – aparentemente conservadoras e anti-esquerdistas (podemos até pensar se não anti-estado social) – sujeitam-se a ser pouco populares entre a crítica (Kim Newman foi um dos que não gostaram), sobretudo porque uma das personagens mais simpáticas é o proprietário da loja de armas, um atirador fenomenal, que parecia ser o mais apto a sobreviver naquele Miserável Mundo Novo.




Depois do choque inicial, do inesperado ataque da criança infectada que nos mergulha na parada inesgotável de zombies grotescos aos meros quatro minutos de filme, a câmara volta a acompanhar a fuga de Ana pelo mesmo subúrbio do Milwaukee, agora completamente irreconhecível, com casas em chamas e o caos instalado. A primeira vítima é a confiança mútua que permite manter uma nação coesa. Perante a súbita irrupção dos zombies, ninguém se detém para prestar auxílio ao próximo. Está criado o cenário ideal para explorar a adaptação da sociedade ao novo status quo. E, no entanto, após nos sugerir um determinado rumo, o filme perde ele próprio o rumo, sem saber onde se dirigir. Tal como no original, o grupo de sobreviventes que acompanhamos abriga-se num centro comercial, onde Gunn e Snyder, não subscrevendo a mundividência de Romero, aproveitam com mais ou menos sucesso para nos chamar a atenção para o carácter artificial da vida quotidiana, à medida que os sobreviventes tentam manter o seu estilo de vida nos pálidos simulacros da exposição nas montras das lojas, pontilhados por momentos de soberbo humor negro (como quando Andy vai eliminando zombies com tiros certeiro, escolhendo os mais parecidos com as celebridades que os outros vão sugerindo: ‘Jay Leno… Burt Reynolds...’).




A anomia substitui rapidamente a ordem social, e o carisma dos actores escolhidos por um casting com poucas falhas – Jake Weber, como um calmo e carismático vendedor de electrodomésticos, Ving Rhames como o polícia determinado, Michael Kelly como o, primeiro antipático e depois fulcral, C.J. – leva-nos a aplaudir cada passo dado para lá do aceitável, fazendo o que é necessário para sobreviver. Pouco depois de eliminarem um dos seus companheiros, contaminado por uma mordidela, mas ainda são, a própria filha do falecido sorri e festeja em companhia dos algozes do pai. O novo estilo de vida nas entranhas do Centro Comercial (significativamente chamado Crossroads) é um dos pontos altos do filme, e dada a potencialidade de comentário social e acção no seu interior, custa a perceber porque hão os sobreviventes de sentir a necessidade de partir numa demanda condenada ao fracasso. Apenas a deriva de ideias dos autores e a vontade de mostrar a excursão a bordo de dois autocarros blindados podem justificar a iniciativa. E, em última instância, é o que faz esboroar todo o filme. Apesar dos excelentes efeitos especiais, é um filme que pouco oferece para lá do mero espectáculo visual. Snyder e Gunn parecem incapazes de explorar as consequências das premissas por eles próprios sugeridas, abandonando todas as linhas narrativas com potencial dramático a favor de mais uma prolongada sequência de acção – a referida excursão em busca da segurança de uma imaginada ilha – que encerra o filme com um puf inconsequente. Contrariando aquela que parecia a intenção original, Snyder acaba por nos dizer que todos os sacrifícios são inconsequentes, e que a ordem social deposta não pode ser substituída por nenhuma outra. A sensação com que ficamos é de ter assistido a um impressionante spot publicitário que não anunciava produto algum.

March 19, 2013

DEATH RACE 3: INFERNO (Roel Reiné, 2012)



Uma das principais causas do declínio da qualidade narrativa e da estética visual no cinema fantástico tem sido a detrimental influência visual dos reality shows e dos videojogos; CGI, movimentos tremidos de câmara, rap ou hip-hop aos berros, impossíveis POV subjectivos e colorações esverdeadas parecem ter vindo para ficar: nem é preciso dizer SUCKER PUNCH (2011) ou Uwe Böll para justificar este argumento. Curiosamente, ambos os factores funcionam maravilhosamente ao serviço deste DEATH RACE 3: INFERNO, tal como tinham favorecido já as duas anteriores entregas. Paul W. Anderson – que não é propriamente alheio à adaptação de videojogos (RESIDENT EVIL e suas sequelas, que escreveu e/ou realizou) – realizador por cujo trabalho até há pouco tempo pouca simpatia tinha, soube evitar a armadilha de refazer o clássico de culto de Paul Bartel, DEATH RACE (1975) e, com o beneplácito de Corman, surpreendeu com um filme entusiástico, competente, e com o seu q.b. de comentário social como forma de justificar a extravagante violência automobilística.  


Quando DEATH RACE estreou em 2008, com o cenário de uma economia americana colapsada, não deve ter deixado de provocar um arrepio nos espectadores que começavam ainda a descobrir o longo dominó financeiro despoletado pela falência do Lehman Brothers, conferindo particular relevância à sua trama de exploração de uma corrida mortal como forma de financiar os crescentes custos do sistema prisional privatizado. Juntamente com o subapreciado REPO MEN (2009) de Miguel Sapotchnick, foi um dos primeiros filmes a representar cenários de horror económico após o soluço financeiro de 2008, o que terá conferido algum grau de plausibilidade às excêntricas premissas de um e outro. 


A história dos vários DEATH RACE, como a narração desta última entrega não deixa de nos recordar, começa e acaba com Frankenstein, a estrela mascarada das corridas letais que, a par do inovador DR. WHO (1963-actualidade), oferece uma razão lógica e plausível para a passagem de testemunho de Jason Statham no primeiro filme, para o surpreendentemente agradável Luke Goss (da famigerada boys band original, Bros) nas duas sequelas. Tendo começado com a típica história de um encarceramento imerecido, perpetuado por uma incriminação que assegurasse a sua participação nas corridas substituindo o original Frankenstein (David Carradine) falecido num aparatoso acidente, o piloto mascarado (como um Jason Vorhees tecnofantástico) oferece um excelente ícone anónimo para identificação e gáudio das massas que acompanham as corridas no circuito prisional de Terminal Island.
  



Depois de DEATH RACE ter estabelecido a premissa da corrida mortal, as regras e a recompensa (ao fim de cinco vitórias, a liberdade), e DEATH RACE 2 (2010) ter jogado de forma interessante com a questão da identidade do homem sob a máscara, pouco mais resta a esta mais recente entrega do que aumentar o grau de espectacularidade da acção e fazer variar o cenário, tarefa que Anderson (argumentista) e Roel Reiné (realizador) fazem sem hesitar. Uma OPA agressiva por parte do multimilionário Frost (Dougray Scott, preenchendo o habitual papel do vilão britânico que tem dominado o cinema americano) sobre a empresa de Weyland (Vingh Rhames) que explora as corridas, serve como justificação para o cenário da corrida no deserto do Kalahari, o que permite fazer o upgrade dos carros musculados e blindados das primeiras entregas para verdadeiros colossos todo-terreno que parecem saídos das oficinas de MAD MAX (1979-1985). Tudo o mais, todas as pequenas intrigas secundárias, são apenas rodas dentadas da engrenagem no coração do filme: as próprias corridas, filmadas com a precisão de um velho espectáculo de Hal Needham, e a anos-luz das abstracções CGI da série THE FAST AND THE FURIOUS (2001-2010).  




Não obstante a centralidade dos três grandes segmentos da corrida, Anderson e Reiné empilham outros motivos de interesse puramente pulp, desde o pormenor dos guardas que patrulham o perímetro prisional com corpulentas hienas, passando por duas cenas de pancadaria com artes marciais, até à inesperada prova de selecção das sensuais navegadoras que, tivesse sido filmada nos tempos áureos da AIP ou da New World Pictures de Corman, não deixaria de incluir tops arrancados e corpo-a-corpo na lama (confirmando o filme como um clássico de culto instantâneo), antes de culminar na violenta apoteose com machados, lança-chamas e cabeças decepadas com que somos bafejados. 


O elenco de actores, que inclui os favoritos de culto Danny Trejo (FROM DUSK TILL DAWN) e Ving Rhames (PULP FICTION) parte do qual transita dos filmes anteriores, entrega-se com gosto a este misto de filme de acção, exploitation e tímido comentário social, apesar de alguns apartes dos falsos anúncios televisivos, seguindo na linha de outros semelhantes da obra de Paul Verhoeven (v.g. ROBOCOP, STARSHIP TROOPERS), se apresentarem como apontamentos semi-satíricos que elucidam alguns pormenores da constituição do tecido sociológico do futuro próximo imaginado pelo filme; o meu favorito: “o acesso ilegal ao live feed será punido com pena de morte, ou prisão perpétua para os menores de quinze anos”.  


Luke Goss possui inegável carisma no papel do mítico Frankenstein e a belíssima Tanit Phoenix incendeia o ecrã à cabeça de um deslumbrante elenco feminino que pouco mais faz do que cumprir a função de regalo para os olhos e, para além do generoso decote que ostenta em todo o filme, presenteia o espectador com a mais inesperada, absurda e gratuita shower scene de que há memória, de tal forma que nos sugere a sua inclusão como um momento auto referencial face às convenções genéricas. Não que isso constitua razão de queixa, seja como for…  




Contas feitas, e parafraseando umas das mais memoráveis falas de Quentin Tarantino, DEATH RACE: INFERNO, é uma pop bubblegum extravaganza, que preenche exemplarmente a sua intenção de servir um espectáculo puramente sensorial. O final, que imagino não encontre uma recepção unânime por parte da audiência, apenas faria sentido até finais dos anos setenta e nos série-B mais fracos, num universo alheio às regras da genética e onde os registos dentários não existissem. Atenta a gratuitidade com que a vida humana é encarada ao longo de toda a série, poder-se-ia arguir que a identificação dos cadáveres seria uma formalidade desnecessária, mas se tivermos em conta os milhões de dólares em jogo na trama, não se nos afigura muito credível – é apenas preguiça de Anderson no argumento, ou o simples gosto de escrever uma conclusão antiquada, mais adequada à era que inspirou e viu surgir o primeiro DEATH RACE (1975), do que a um imaginário amplamente informado por séries como CSI ou THE CLOSER. Seja como for, é um final relativamente insatisfatório mas que deixa em aberto múltiplos rumos futuros para a franchise e, pelo menos desta vez, fico ansioso pela próxima sequela.